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domingo, 9 de janeiro de 2011

Homofobia nas Escolas I

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Diversidade Sexual na Educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas.

A Coleção Educação para Todos, lançada pelo Ministério da Educação e pela UNESCO em 2009, é um espaço para divulgação de textos, documentos, relatórios de pesquisas e eventos, estudos de pesquisadores/as, acadêmicos/as e educadores/as nacionais e internacionais, que tem por fnalidade aprofundar o debate em torno da busca da educação para todos.A partir desse debate, espera-se promover a interlocução, a informação e a formação de gestores, educadores e demais pessoas interessadas no campo da educação continuada, assim como reafirmar o ideal de incluir socialmente o grande número de jovens e adultos, excluídos dos processos de aprendizagem formal, no Brasil e no mundo.

Para a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), (...) a educação não pode se separar, nos debates, de questões como desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentável; gênero, identidade de gênero e orientação sexual; escola e proteção a crianças e adolescentes; saúde e prevenção; diversidade étnico-racial; políticas afrmativas para afrodescendentes e populações indígenas; educação para as populações do campo; qualifcação profssional e mundo do trabalho; democracia, direitos humanos, justiça, tolerância e paz mundial. Na mesma direção,a compreensão e o respeito pelo diferente e pela diversidade são dimensões fundamentais do processo educativo.

Este volume, o nº 32 da Coleção, propõe uma série consistente e articulada de refexões sobre a produção e a reprodução da homofobia na educação, especialmente no contexto da escola e nos espaços ligados a ela.

Rigorosa e minuciosamente examinada a partir dos instrumentos fornecidos pelas ciências sociais e humanas, a homofobia (compreendidas também a lesbofobia, a transfobia e a bifobia) evidencia-se como um grave problema social cujo enfrentamento não pode ser mais adiado.

O espaço escolar aparece aqui como uma poderosa instância de reprodução das lógicas homofóbicas. Ali, a homofobia é consentida e ensinada, produzindo efeitos devastadores na formação de todas as pessoas. A homofobia compromete a inclusão educacional e a qualidade do ensino. Incide na relação docente/estudante. Produz desinteresse pela escola, difculta a aprendizagem e conduz à evasão e ao abandono escolar. Afeta a defnição das carreiras profssionais e difculta a inserção no mercado de trabalho.Desumaniza e promove insegurança, isolamento e vulnerabilidade. Desfavorece a integração das famílias homoparentais com a comunidade escolar. Gera e alimenta outras formas de preconceito, discriminação, violência etc.

No entanto, os/as autores/as também apontam a escola como um dos mais importantes espaços para a promoção do reconhecimento da diversidade sexual e da desestabilização da mentalidade e dos mecanismos dessa insidiosa opressão. Ali, o enfrentamento do preconceito, do estigma, da discriminação e da violência contra lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e transexuais constitui uma possibilidade extraordinária para a melhoria da própria educação e para o fortalecimento dos direitos humanos, como direitos de todos.

A problematização da homofobia e o reconhecimento da diversidade sexual revelam-se, portanto, indispensáveis para se viabilizar não só uma educação inclusiva e de qualidade, mas também a construção e a consolidação de um modelo democrático de sociedade.

As análises aqui realizadas situam a sexualidade no plano dos direitos humanos numa perspectiva emancipadora. Apontam um recíproco e profundo entrelaçamento entre questões relativas a corpo, gênero, sexualidade, etnia/raça, condição físico-mental, classe social etc. Refetem sobre os nexos entre homofobia, heteronormatividade, sexismo, misoginia, racismo, xenofobia e outros regimes discriminatórios. Desvendam processos de “heterossexualização compulsória” e de construção de comportamentos homofóbicos desde a Educação Infantil. Discutem ambiências escolares, concepções curriculares, livro didático, “educação sexual”, formação profssional, relações escola-família, literatura, legislação, modalidades de enfrentamento da homofobia, políticas de inclusão escolar, políticas de identidade, teoria queer etc.

Ao buscar fornecer elementos para a refexão e a atuação política, bem como subsídios para uma ação pedagógica promotora da diversidade e da cidadania, este livro torna-se imprescindível para docentes, pesquisadores/as, gestores/as, agentes dos movimentos sociais, estudantes, pais e mães, cidadãos/ãs em geral.

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Diversidade Sexual na Educação: problematizações sobre a homofobia nas escolas / Rogério Diniz Junqueira (organizador). – Brasília : Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO, 2009. p. 458. (Coleção Educação para Todos, vol. 32)

1. Educação – Sexualidade. 2. Homossexualidade. 3. Homofobia. 4. Direitos Humanos. 5. Diversidade Sexual.

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sábado, 8 de janeiro de 2011

Afinal, que diz a lei contra a homofobia?

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Por William De Lucca

Entre a extensa lista de citações do filósofo grego Aristóteles, uma é essencial para que todo este texto faça sentido: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Ser gay não é o único motivo que me faz acreditar que o projeto de lei substitutivo 122, de 2006, adiciona a discriminação aos homossexuais a lista de crimes da lei º 7.716 seja benéfico para toda a sociedade. O que me faz acreditar neste projeto é seu texto, claro, conciso e objetivo.

Ao contrário do que vociferam pastores evangélicos Brasil a fora, como Silas Malafaia e o senador Magno Malta (PR/ES), a PL122 não torna os gays uma ‘categoria intocável’. A discriminação por orientação sexual (homo/bi/trans e hetero) passa a incorporar o texto de uma lei já existente, que pune o preconceito por raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero e sexo. Aprovada a modificação, a lei ganha o texto ‘orientação sexual e identidade de gênero’ como complemento.

A lei, que já cita uma extensa lista de crimes contra estas fatias da sociedade, adiciona ainda impedir ou proibir o acesso a qualquer estabelecimento, negar ou impedir o acesso ao sistema educacional, recusar ou impedir a compra ou aluguel de imóveis ou impedir participação em processos seletivos ou promoções profissionais para as pessoas negras, brancas, evangélicas, budistas, mulheres, nordestinos, gaúchos, índios, homens heterossexuais, mulheres homossexuais, travestis, transexuais… pra TODO MUNDO! Ou seja, a lei não cria artifícios para beneficiar apenas os gays, mas para dar mais garantias de defesa de seus direitos para toda a sociedade, da qual a comunidade gay está inserida.

O único artigo que cita diretamente novos direitos constituídos a homossexuais é o oitavo, que torna crime “proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãos”, deixando claro que os direitos são de TODOS, e não apenas de um grupo seleto de pessoas.

Mas e a liberdade de expressão?

O ponto mais criticado por evangélicos, especificamente, é a perda da liberdade de expressão. Ora, onde um deputado em sã consciência faria um projeto desta magnitude e não estudaria a fundo a constituição para evitar incompatibilidades? A PL122 apenas torna crime atos VIOLENTOS contra a moral e honra de homossexuais, o que não muda em nada o comportamento das igrejas neo-pentecostais em relação a crítica. Uma igreja pode dizer que ser gay é pecado? Pode. Assim como pode dizer que ser prostituta é pecado, ser promiscuo é pecado, ser qualquer coisa é pecado. A igreja pode dizer que gays podem deixar o comportamento homossexual de lado e entrar para a vida em comunhão com Jesus Cristo? Pode, claro! Tudo isso é permitido, se há homossexuais descontentes com sua orientação sexual, eles devem procurar um jeito de ser felizes, ou aceitando sua sexualidade ou tentando outro caminho, como a igreja, por exemplo.

Agora, uma igreja pode falar que negros são sujos, são uma sub-raça e que merecem voltar a condição de escravos? Pode dizer que mulheres são seres inferiores, que não podem trabalhar e estudar, e que devem ser propriedade dos maridos? Pode dizer que pessoas com deficiência física são incapazes e por isto devem ser afastadas do convívio social por não serem ‘normais’? Não, não podem. Da mesma forma, que igrejas não poderão dizer (mesmo porque é mentira) que ser gay é uma doença mental, que tem tratamento, que uma pessoa gay nunca poderá ser feliz e que tem de se ‘regenerar’. Isto é uma violência contra a moral e a honra dos homossexuais, e este tipo de conduta ofensiva será passiva de punição assim que a lei for aprovada.

O que a PL 122 faz é incluir. Ela não cria um ‘império Gay’, como quer inadvertidamente propagar um ou outro parlapatão no Senado. A PL 122 não deixa os homossexuais nem acima, nem abaixo da lei. Deixa dentro da lei. Quem prega contra a lei tem medo de perder o direito de ofender, de humilhar, de destruir seu objeto de ódio. Quem prega contra a PL 122 quer disseminar a intolerância. E tudo que nossa sociedade precisa hoje é aprender respeito e tolerância, e descobrir de uma vez por todas que é a pluralidade que torna nossas breves existências em algo tão extraordinário.

Homofobia nas Escolas II

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               As escolas brasileiras são hostis aos homossexuais e o tema da sexualidade continua sendo pouco discutido nas salas de aula. Essas são as principais constatações da pesquisa Homofobia nas Escolas, realizada em 11 capitais brasileiras e na qual foram ouvidos 1,4 mil professores, gestores e estudantes durante o ano de 2009. O estudo é uma iniciativa da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Traves tis e Tran sexuais (ABGLT), Gale , Repro latina, Pathfinder, Ecos, e Ministério da Educação.

               "A homofobia é negada pelo discurso de que não existem estudantes LGBT [lésbicas, gays, bissexuais e travestis] na escola. Mas quando a gente ia conversar com os estudantes, a percepção, em relação aos colegas LGBT, era outra", contou uma das pesquisadoras, Magda Chinaglia.

               Parte dos dados, com destaque sobre a situação na cidade do Rio, foi divulgada hoje (4), na própria capital. Os dados completos, com informações sobre a visita a 44 escolas de todas as regiões do país e trechos de 236 entrevistas feitas com professores, coordenadores de ensino, alunos do 6º ao 9º ano, além de funcionários da rede, devem ser divulgados até o final do ano.

               De acordo com a pesquisa, os homossexuais são bastante reprimidos no ambiente escolar, onde qualquer comportamento diferenciado "interfere nas normas disciplinares da escola". "Ouvimos muito que as pessoas não se dão ao respeito. Então, os LGBT têm que se conter, não podem [se mostrar], é melhor não se mostrarem para serem respeitados", contou a pesquisadora.

               A pesquisa também revela que pouquíssimos alunos se declaram gays, uma parcela menor se declara lésbica e nenhum se declara travesti. A não declaração, de acordo com a pesquisa, é resultado do preconceito contra os homossexuais e a falta de preparo dos professores e autoridades na área da educação. No caso dos travestis, a situação é mais grave. Além da invisibilidade, fenômeno que faz com que os alunos e as alunas homossexuais não sejam reconhecidos, nenhuma escola autorizava o uso do nome social (feminino) e tampouco o uso do banheiro de mulheres. "Os travestis não estão nas escolas. A escola exige uniforme, não deixa os meninos usarem maquiagem. Os casos de evasão [escolar] são por causa dessas regras rígidas", explicou Magda". A explicação das escolas para ausência de travestis, segundo os pesquisadores, é o fato de a pesquisa não ter como alvo instituições de ensino médio. Entretanto, os dados mostram que a "organização da escola, com suas normas e regras, não permitem a presença da travesti nesse ambiente". A constatação é ilustrada pelo depoimento de uma autoridade: "Eu tenho uniforme... maquiagem a gente não permite."

               De um modo geral, não existe educação sexual sendo realizada de forma sistemática nas escolas. Quando existe, é pontual para responder alguma dúvida do aluno e os professores não abordam a questão da diversidade", analisou a doutora em Educação e responsável pela pesquisa Margarita Diaz. "Todo mundo conhece algum LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis e Transexuais), mas nunca ele está dentro da escola", completou ela, que representa a instituição Reprolatina, responsável pela execução da pesquisa.

               De acordo com a vice-presidente do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBT, Marjorie Marchi, que assistiu à divulgação dos dados, é principalmente a exclusão educacional que leva muitos travestis à prostituição. "Aquele quadro do travesti exposto ali na esquina é o resultado da falta da escola. Da exclusão", disse.

               Em relação à educação sexual, os professores alegam que o tema não é muito discutido porque as famílias podem não aprovar a abordagem. "Existe um temor da reação desfavorável das famílias, Mas isso é o que eles [os professores] dizem", afirmou Magda. "Os estudantes não colocam a família como um problema. Aqui, cabe outra pesquisa para saber se as famílias interferem", completou.

               A pesquisa não analisou especificamente os casos de violência, embora os especialistas tenham citado a ocorrência de brigas motivadas pela orientação sexual da vítima e colhido inúmeros relatos de episódios de homofobia. O objetivo é que o documento auxilie estados e municípios a desenvolver políticas públicas para essa população.

               "As pessoas estão sendo agredidas diuturnamente dentro das escolas, em todas as capitais. A educação é um direito. Não pode ser [a violência contra homossexuais na escola]. Presenciamos um menino sendo espancado e sendo chamado de ‘veadinho‘. Estamos falando de escolas de 6º ao 9º", destacou a pesquisadora.

               No Rio, as secretarias estaduais de Assistência Social e de Educação trabalham juntas num projeto de capacitação de professores multiplicadores em direitos humanos com foco no combate à homofobia. A meta é capacitar cerca de 8 mil dos 75 mil professores da rede até 2014.


               CULPA
               Entre os educadores, chamou a atenção a culpabilização dos homossexuais. Um professor disse "não quero ser injusto, mas tem uns (homossexuais) que querem chocar". A questão religiosa também foi citada como causa da falta de uma educação sexual que leve em conta a diversidade. Os professores não sabem como trabalhar a diversidade sexual, nem combater a homofobia. Como conseqüência, os meninos e meninas têm baixa auto-estima, queda no rendimento ou abandono escolar e depressão.

               A fala dos professores mostra que a orientação sexual dos adolescentes é “tolerada” quando não há uma demonstração clara da ho mossexualidade, por exemplo. Os jovens que mais sofrem com a discriminação são aqueles que assumem a orientação. No grupo que mais sofre estão travestis e transexuais. “Para a escola, é como se essa população não existisse”, conta Margarita.

               Os pesquisadores presenciaram cenas de violência física contra jovens homossexuais em que professores e inspetores estavam próximos e não tomaram nenhuma atitude. Existem relatos de suicídios de alunos vítimas da discriminação. “Há um consenso de que existe preconceito e que os docentes não sabem lidar com isso. Em geral, associa-se a homofobia somente com a agressão física e não com as demais manifestações”, afirma Margaríta. Os educadores alegam falta de tempo e preparo para não trabalhar questões relativas à diversidade. Há ainda receio de “incentivar” a vida sexual dos alunos.

               Coordenador do Programa Rio sem Homofobia, Cláudio Nascimento explica que a pesquisa servirá como base para a elaboração de políticas públicas contra a homofobia em todo o País. "Vamos realizar um seminário para a discussão e planejamento de políticas."

               O estudo tem o objetivo de tirar do papel políticas públicas já existentes para combater o preconceito contra a população LGBT. “O Brasil Sem Homofobia é um programa federal já em curso. Mas ele não chega até a sala de aula”, argumenta a pesquisadora responsável pelo estudo, Margarita Díaz.

               Os relatos divulgados são de autoridades, professores e alunos do município do Rio. Em cada cidade, 134 pessoas de quatro escolas foram entrevistados. Ao todo, foram ouvidas 1406 pessoas nas capitais: Manaus (AM),Porto Velho (RO), Natal (RN), Recife (PE), Cuiabá (MT), Goiânia (GO), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS).

               Além das entrevistas e grupos focais, os pesquisadores analisaram o ambiente escolar. Em nenhuma escola de Curitiba, por exemplo, havia qualquer cartaz ou menção aos direitos humanos ou diversidade sexual. “Os próprios estudantes afirmam que a escola deveria ser um ambiente mais acolhedor ao trabalhar com a diversidade”, explica a pesquisadora.


               QUESTÃO DE RESPEITO
               Para Toni Reis, presidente da ABGLT, o que o movimento social deseja não é um privilégio no ambiente escolar e sim respeito à diversidade sexual. “Queremos o cumprimento da Constituição Federal, que diz que todos são iguais e não haverá discriminação.” Para mudar essa situação, ele sugere capacitação e apoio aos docentes. Como resultado da pesquisa, foram gerados materiais de apoio que serão distribuídos aos docentes. Segundo Toni, hoje a homossexualidade é crime em 75 países do mundo e em sete é punida com pena de morte.

               A presidente do Grupo Dignidade, Rafaelly Wiest, transexual mulher, diz que a pesquisa confirmou na prática o que a entidade observa há anos. “Não queremos que, em função da exclusão escolar, viver à margem seja a única opção de travestis e transexuais”, explica. “Qualquer indivíduo para entrar no mercado de trabalho precisa de qualificação. Essa população não consegue sequer terminar o ensino fundamental.”

               Participaram do estudo estudantes do 6.º ao 9.º ano e professores e gestores de escolas públicas de Manaus (AM), Porto Velho (RO), Recife (PE), Natal (RN), Goiâ nia (GO), Cuiabá (MT), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS) e Curitiba (PR). Os resultados são qualitativos e, portanto, não há porcentuais.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

DESCONSTRUINDO PRECONCEITOS

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Texto by Valéria Melki Busin*

A falta de conhecimento sobre a comunidade homossexual alimenta preconceitos de ordens variadas. Os estereótipos funcionam como categorias únicas e imutáveis nas quais os e as homossexuais são incluídos/as de forma quase irremediável, deixando-os/as atados/as, no imaginário popular, como se vestissem uma incômoda camisa-de-força.

Quando falamos sobre homossexualidade, para a maioria das pessoas o que vem à mente, e de forma quase automática, são tipos bem conhecidos: a bicha afetada, a travesti exagerada, a lésbica masculinizada. Poderíamos dizer que essas são as faces mais visíveis da homossexualidade. Aqueles/as que, por sua forma explícita de expressar sua orientação sexual, tornam-se mais facilmente reconhecíveis. No entanto, a diversidade de tipos e personalidades e na forma de se vestir e de se comportar é enorme entre os homossexuais, assim como acontece entre os heterossexuais. Dessa forma, existem os gays afeminados, as lésbicas caminhoneiras, as travestis escandalosas, como também existem gays com visual masculino, lésbicas muito delicadas e travestis ocupando a Academia e obtendo o reconhecimento que somente a elite da nossa sociedade consegue ter. Não existe um tipo único que nos represente, não existe um modelito - palatável ou execrável - que seja protótipo perfeito do/a homossexual padrão.

Outra idéia estereotipada que emerge quase imediatamente é que os homossexuais são, de forma genérica, seres sexuais por natureza, isto é, só pensam em sexo o tempo todo. O termo homossexualidade talvez tenha alguma relação com essa fantasia, pois exclui as outras esferas todas da nossa vida, tão ou mais importantes do que fazer sexo pura e simplesmente. Assim, somos percebidos por uma ótica distorcida, que nos reduz a uma sexualidade exacerbada, fora de contexto, imoral. É muito difícil imaginar que homossexuais trabalham, pagam contas, estabelecem relacionamentos afetivos, casam-se, criam filhos, possuem animais de estimação, têm amigos e, como todo mundo, selecionam seus parceiros com critérios que estão além da obtenção imediata de prazer.

Na nossa sociedade, a supervalorização do masculino como figura de poder cria sérias desigualdades entre homens e mulheres e entre heterossexuais e homossexuais. O fato de as mulheres serem socialmente vistas como menos competentes faz, por extensão, com que os gays sejam vistos como inferiores, pois não se pode admitir que seres nascidos do sexo masculino sejam supostamente mais delicados, sensíveis, e que se aproximem do gênero feminino, abrindo mão do poder e da glória de ser “macho”. Neste sentido, embora não se justifique nem possa ser aceito, entende-se perfeitamente bem por que os gays são ridicularizados e menosprezados. Da mesma forma, torna-se tão compreensível quanto inaceitável o fato de lésbicas serem também alvo de chacota e de escárnio, quando não de violência e abuso sexual.

Os gays têm de se defrontar constantemente com questões sobre sua suposta promiscuidade ou têm de, freqüentemente, dar satisfações à sociedade sobre a pedofilia. Isso é uma das grandes provas de que o preconceito distorce os fatos e enquadra seres humanos em categorias rígidas e absurdas.

Para os homens heterossexuais, na nossa cultura sexista que mantém tamanha desigualdade de gênero, ser promíscuo, isso é, ter muitas parceiras diferentes, é um valor positivo, é considerado como prova de que ele é realmente viril. Por que a suposta promiscuidade dos gays é condenada e a dos heterossexuais é valorizada? Trata-se, evidentemente, do mais puro preconceito. E é bom lembrar: se em alguns (raros) casos os gays se expõem fazendo sexo em locais públicos, trata-se de uma conseqüência da impossibilidade de serem aceitos em suas famílias, no trabalho, entre os amigos.

E vejam: a imensa maioria dos abusos e violências sexuais cometidos contra crianças e adolescentes é praticada por homens heterossexuais, normalmente conhecidos das vítimas: pais, padrastos, tios, amigos ou vizinhos. Nem por isso, os homens heterossexuais de forma geral são suspeitos de pedofilia a priori, nem são vistos como agressores de menores simplesmente por serem heterossexuais. Existem gays que praticam pedofilia? Claro que sim, mas são uma minoria em relação ao total dos gays, como acontece com os heterossexuais. E todos nós, como cidadãos e cidadãs, repudiamos essas práticas.

Ainda na linha da desigualdade de gênero e da desqualificação do feminino, como admitir que mulheres, criadas para serem dependentes, se não submissas (afinal, deveriam ser o sexo frágil, não é?), estabeleçam relações que simplesmente prescindem da figura masculina, tanto para exercer sua afetividade, como para sua sexualidade?

Nesse sentido, podemos pensar que as lésbicas sofrem preconceito de dupla ordem: por serem mulheres e por serem homossexuais. E são vistas como pessoas mal-amadas, que tiveram problemas sexuais com alguns homens e, por isso, seriam facilmente curadas por uma boa “trepada” com um homem “de verdade”. Ou são vistas, o que está claramente evidenciado nos filmes pornôs, como mulheres taradas e ávidas por transar com um homem bem-dotado, sendo que ele sozinho faria a alegria das duas.

A verdade é bem outra. As lésbicas têm atração por outra mulher para fazer sexo, sim, mas também – e talvez especialmente – para amar, estabelecer um relacionamento afetivo, casar, cuidar da casa e das contas, criar filhos e tudo o mais que faz parte da vida de todas as pessoas.

Entre as lésbicas existem as mulheres muito masculinizadas, sim, e existem as muito femininas - e todas as variações possíveis entre esses pólos. Existem as que tiveram problemas com os homens, como tantas heterossexuais também o tiveram. A grande maioria das lésbicas simplesmente gosta de outra mulher porque ninguém pode escolher por quem se apaixonar, isso não é privilégio de ninguém. O coração de uma mulher bate mais forte por outra mulher independentemente de suas experiências anteriores com homens, de suas preferências estéticas, das roupas que veste. Muitas, inclusive, já tiveram experiências sexuais bem satisfatórias com homens, mas não se apaixonam mais por eles. E não se trata de uma opção. Estamos falando aqui de se apaixonar, de amar, de sentir atração sexual: nada disso ocorre de forma consciente, por escolha. Da mesma forma que não é possível escolher se se vai ser destro ou canhoto.

A única escolha possível é viver ou não viver plenamente seu amor, seus desejos, sua sexualidade, sua afetividade. É bem possível um homossexual se casar com alguém do sexo oposto, ter filhos e seguir os padrões estabelecidos pela sociedade como mais adequados, como é possível fazer um canhoto ser treinado para usar a mão direita. Mas isso só se configura como uma impossibilidade de felicidade e de realização, ou ainda, se configura como uma violência enorme por puro e simples preconceito.

Então, diante dessa situação, uma enorme parte dos homossexuais ainda se esconde, se mascara, se disfarça, porque não é nada fácil passar a vida sendo ridicularizado, provocado e incomodado. Não se vive isso impunemente. A auto-estima sofre abalos imensos e o sofrimento é cotidiano. Para se proteger, gays e lésbicas se escondem e deixam de aparecer no discurso da sociedade como são de fato. Assim, os estereótipos acabam tomando formas cristalizadas e quase imutáveis.

As religiões de forma geral e, em nosso país, mais especialmente as religiões cristãs, que são professadas pela maioria absoluta da população (segundo dados da CNBB, quase 74% dos brasileiros são católicos), ajudam a piorar o quadro, pois realizam cruzadas contra o amor entre pessoas do mesmo sexo, alegando que isso se trata de pecado, de desvio moral, de aberração. Estamos cansados desse Deus tirano e incompreensível que os poderosos das hierarquias religiosas nos pintam. Será mesmo que Deus é contra o amor consentido entre duas pessoas? Será mesmo que Deus se importa mais com nossa sexualidade do que com o amor, o companheirismo, a cumplicidade e os valores éticos que cultivamos em nossas vidas? Será que

Deus se incomoda tanto com nosso amor, que se esquece das guerras inomináveis, se esquece da fome e da miséria que a desigualdade social gera? Será que Deus é tão cruel que ordena que em sua casa nós sejamos massacrados, condenados, excluídos, desrespeitados pelo fato de, simplesmente, sermos uma minoria? Será que Deus também persegue todas as inúmeras espécies animais que, comprovadamente, têm relacionamentos homossexuais? Eu, pessoalmente, não consigo acreditar nisso. Eu prefiro manter a imagem do Deus justo e sábio, que não se importa com tamanhas mesquinharias nem promove o ódio e a intolerância que, muitas vezes, legitimam a violência. Eu, pessoalmente, prefiro acreditar que nas igrejas e templos, nas cúpulas religiosas e nas encíclicas, o que acontece é que homens intolerantes usam

Deus para conquistar seus objetivos, mas se esquecem de ouvi-lo e obedecê-lo em seu mandamento mais belo: amai-vos uns aos outros.

Por tudo isso é que precisamos ainda de muita luta para mudar a mentalidade de toda uma sociedade. Por que ser canhoto não é problema, mas sim ser obrigado a usar a mão direita. Da mesma forma, ser gay ou lésbica não é nenhum problema, o problema é o que a sociedade faz com as pessoas nessas condições. Precisamos fortalecer e acolher os/as homossexuais em nossa sociedade para acabar com uma das formas de violência simbólica mais cruéis de nossa sociedade: a segregação e a estigmatização.

Se você não gosta de injustiça, se você não admite desigualdade, se você quer um mundo mais justo, humano e digno para seus filhos/as, pense nisso. Somos todos diferentes, isso não deve ser motivo para criarmos tantas e tantas desigualdades. Aprendendo a conviver com e a respeitar as diferenças estaremos ajudando a construir um mundo menos árido, mais tranqüilo para todos vivermos em harmonia. [E pra quem ainda não entendeu bem o que é o conceito queer, isso é queer! Totally queer!].


* Valéria Melki Busin é psicóloga formada pela Universidade de São Paulo e Mestre em Ciências da Religião na PUC/SP. É integrante da ONG feminista Católicas pelo Direito de Decidir, escritora e militante pelos direitos das lésbicas.

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